Encontrar uma ferida que não fecha em uma pessoa idosa preocupa, e não é uma situação para ser explicada apenas pela idade. Quando a lesão não mostra melhora progressiva, aumenta, volta a abrir ou passa a soltar secreção, ela precisa ser avaliada por um profissional de saúde. A causa pode ser simples ou exigir tratamento específico, e não dá para descobrir com segurança apenas olhando em casa.
O Ministério da Saúde cita a ferida que não cicatriza em quatro semanas como um sinal de atenção para o câncer de pele, mas esse não é o único motivo possível. Diabetes, circulação prejudicada, pressão contínua, infecção, desnutrição e atrito repetido também podem atrasar o fechamento. O melhor caminho é observar os sinais, proteger a região sem improvisar e buscar o serviço adequado.

Quando a ferida deixa de parecer um machucado simples
Uma escoriação, um corte pequeno ou uma bolha costumam apresentar alguma evolução ao longo dos dias: a dor diminui, a área para de aumentar e a pele começa a se recompor. Não há um relógio igual para todas as lesões, porque profundidade, local, causa e saúde geral mudam o ritmo. O ponto mais importante é perceber se existe melhora gradual.
Se a ferida permanece aberta, cresce, sangra com facilidade ou melhora por alguns dias e depois piora, vale marcar avaliação. A persistência não permite concluir qual é a causa. Em uma pessoa com diabetes, por exemplo, uma lesão no pé pode evoluir com pouca dor por causa da redução da sensibilidade. O RBGG já explicou o que observar no pé diabético em idosos; esse quadro não deve ser confundido com um machucado comum.
Também é preciso olhar para a localização. Uma lesão sobre o calcanhar, o sacro ou outra área que recebe pressão pode estar relacionada à imobilidade. Nas pernas, problemas venosos ou arteriais podem interferir no fornecimento de oxigênio e nutrientes. Já uma ferida em área exposta ao sol, que forma crosta, sangra ou muda de aparência, merece que a possibilidade de câncer de pele seja considerada pelo profissional. Isso não significa que a ferida seja um tumor, mas significa que não convém adiar a consulta.
O que pode atrasar a cicatrização
A cicatrização depende do estado da pele, da circulação local, da resposta inflamatória e das condições gerais da pessoa. Um texto da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde descreve fatores locais como pressão, trauma, edema, infecção, necrose e incontinência. Entre os fatores que afetam o organismo como um todo estão idade, doenças crônicas, condição nutricional, insuficiência vascular, imunossupressão e alguns tratamentos.
Na rotina do cuidador, isso pode aparecer de formas muito concretas:
- pressão ou atrito: a mesma região fica apoiada na cama, na cadeira, no calçado ou em uma órtese;
- perda de sensibilidade: a pessoa não percebe uma bolha, um corte ou o aperto de um calçado;
- umidade excessiva: suor, incontinência ou curativo molhado irritam a pele ao redor;
- circulação alterada: pernas inchadas, doença venosa ou arterial podem dificultar a reparação;
- infecção ou inflamação persistente: vermelhidão, calor, dor crescente, secreção e odor podem acompanhar a piora;
- condição geral: diabetes, doença renal, câncer, baixa ingestão alimentar e mobilidade reduzida mudam o risco e o cuidado necessário.
A pele seca em idosos também merece atenção, porque fissuras podem facilitar novos machucados. Mas hidratar a pele íntegra não é o mesmo que escolher um produto para uma ferida aberta. Quando a lesão já existe, o tipo de cobertura e a frequência da troca dependem da avaliação do leito da ferida e da pele ao redor.
O Instituto Nacional de Câncer informa que o câncer de pele pode aparecer como uma ferida que não cicatriza. A orientação não é tentar identificar um câncer em casa, e sim procurar avaliação quando houver uma lesão persistente, uma pinta que mudou ou uma área que cresce, coça, cria crostas ou sangra. O diagnóstico depende de exame profissional e, em alguns casos, de investigação específica.
Sinais de alerta que pedem atendimento rápido
Uma ferida que não cicatriza merece consulta, mas alguns sinais indicam que não é adequado esperar uma vaga de rotina. A recomendação de urgência depende do conjunto de sintomas e da condição da pessoa. Em idosos, uma mudança súbita no estado geral pode ser mais importante do que a aparência inicial da lesão.
- Procure atendimento no mesmo dia se houver vermelhidão que se espalha, calor, inchaço, dor que aumenta, pus, mau cheiro, febre, prostração ou confusão nova.
- Não espere a consulta comum se a ferida aumentar rapidamente, ficar escura ou arroxeada, perder sensibilidade, comprometer o movimento ou deixar o membro frio e muito pálido.
- Vá a um serviço de emergência se o sangramento não parar com pressão firme, se o ferimento for profundo ou grande, se houver tecido profundo visível ou se algo estiver preso na lesão. Não tente retirar um objeto encravado.
- Ligue para o SAMU 192 quando houver risco imediato à vida, sofrimento intenso, perda de consciência, falta de ar, sinais de choque ou impossibilidade segura de transportar a pessoa. O Ministério da Saúde descreve o 192 como o número da Central de Regulação das Urgências.
O aparecimento de pus ou odor desagradável não deve ser tratado apenas com uma pomada escolhida por conta própria. A infecção pode precisar de avaliação da profundidade, da circulação e do estado geral. Se a pessoa tem diabetes, imunossupressão, doença vascular ou histórico de amputação, avise essa condição no primeiro contato com o serviço.
Como cuidar até a avaliação e o que levar à consulta
Até conseguir atendimento, o objetivo é não agravar a lesão. Lave as mãos antes e depois de tocar no curativo. Mantenha a área protegida e siga a orientação que já foi dada pela equipe de saúde. Se não houver orientação, evite experimentar cremes, pós, álcool, água oxigenada, antibióticos tópicos ou curativos especiais. Alguns produtos irritam a pele, dificultam a avaliação ou mascaram sinais importantes.
Não remova tecido morto, não fure bolhas e não faça compressão na perna ou no pé sem saber a causa da ferida. A compressão pode fazer parte do tratamento de alguns problemas venosos, mas não é uma medida universal. Da mesma forma, elevar o membro ou aliviar a pressão pode ajudar em determinadas situações, porém deve respeitar a orientação profissional e o conforto da pessoa.
Na consulta, leve a lista de medicamentos e informe doenças conhecidas, alergias, cirurgias recentes, quedas, tempo de imobilidade, perda de sensibilidade e mudanças na alimentação. Anote quando a ferida apareceu, o que a provocou, se aumentou e quais cuidados já foram tentados. Uma foto para comparar a evolução pode ser útil, desde que feita com privacidade e sem substituir o exame presencial.
Quando não há urgência, a Unidade Básica de Saúde ou a equipe que acompanha a pessoa costuma ser um ponto prático para iniciar a avaliação. O fluxo muda conforme o município: alguns locais têm ambulatórios ou polos de tratamento de feridas que recebem encaminhamentos. A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, por exemplo, descreve atendimento especializado integrado às UBS para lesões de maior complexidade. Confirme no serviço da sua cidade quais documentos, horários e critérios de encaminhamento são usados.
O mais importante é não normalizar uma ferida persistente por causa da idade. Uma avaliação pode identificar a causa, orientar o curativo adequado e reduzir o risco de infecção, perda de mobilidade e outros problemas. Se a pessoa estiver com dificuldade para sair de casa, diga isso à equipe: a necessidade de cuidado domiciliar ou de apoio para o transporte também faz parte do planejamento.
Perguntas frequentes
Toda ferida que demora a cicatrizar é câncer?
Não. Diabetes, alterações da circulação, pressão contínua, infecção, trauma repetido e outras condições também podem atrasar a cicatrização. Ainda assim, o Instituto Nacional de Câncer inclui a ferida que não cicatriza entre os sinais que precisam de avaliação, especialmente quando há crescimento, crostas ou sangramento.
Quanto tempo devo esperar antes de procurar atendimento?
Não existe um prazo único que sirva para toda ferida. O Ministério da Saúde cita feridas que não cicatrizam em quatro semanas como sinal de atenção para câncer de pele, mas piora, pus, mau cheiro, dor crescente, febre ou mudança rápida exigem avaliação antes disso.
Posso passar pomada ou receita caseira por conta própria?
Não é seguro escolher pomadas, pós, antissépticos ou curativos especiais sem orientação. O produto adequado depende da causa, profundidade, umidade, circulação e condição da pele. Até ser avaliada, siga a orientação já dada pela equipe que acompanha a pessoa e evite improvisos.
Onde levar a pessoa idosa no SUS?
Quando não há sinais de emergência, procure a Unidade Básica de Saúde ou a equipe que já acompanha a pessoa e confirme o fluxo do município. Se houver sangramento que não para, perda de consciência, confusão intensa, falta de ar ou risco imediato, procure um serviço de urgência; o SAMU é acionado pelo 192.
Fontes consultadas: Ministério da Saúde — Câncer de pele; INCA — Como identificar o câncer de pele?; Biblioteca Virtual em Saúde — Cicatrização de lesões; Leeds Community Healthcare — Wound care; Ministério da Saúde — SAMU 192. Acesso em 12 out. 2026.
Leia também os conteúdos do RBGG na categoria Doenças e sintomas para encontrar orientações complementares, sempre respeitando a avaliação individual da equipe de saúde.