Geriatria e Gerontologia
Saúde Mental

Idoso dormindo muito durante o dia: quando investigar?

Por Carlos Meirelles 25/05/2026

Você percebeu que seu familiar tem dormido muito mais durante o dia e isso tem causado preocupação? Esse é um cenário que aparece com frequência nas conversas entre cuidadores e também em consultas geriátricas. Entender quando esse aumento na sonolência faz parte natural do envelhecer e quando merece atenção é fundamental para cuidar bem de quem amamos.

Existe uma diferença importante entre o descanso que o corpo precisa e a sonolência excessiva que pode sinalizar algo que precisa ser avaliado. A sonolência diurna excessiva em pessoas mais velhas não deve ser ignorada, mas também não precisa gerar alarme imediato. O primeiro passo é observar com carinho e registrar o que está acontecendo.

Elderly man resting on sofa with medical supplies nearby, surrounded by houseplants.

Por que o sono muda com o passar dos anos?

O processo de envelhecer traz consigo diversas alterações no padrão de sono. Com o avançar da idade, é comum que o corpo produza menos melatonina, o hormônio que regula o ciclo sono-vigília. Isso significa que muitas pessoas acima de 60 anos começam a sentir mais sono durante o dia e podem ter dificuldade para dormir profundamente à noite.

Essas mudanças são esperadas e fazem parte da forma como o organismo se adapta à passagem dos anos. No entanto, quando a sonolência se torna exagerada — ao ponto de a pessoa dormir várias horas seguidas durante o dia, perder compromissos ou não conseguir manter-se acordada durante refeições e conversas — pode haver algo além do envelhecimento natural pedindo atenção.

Woman in floral pajamas peacefully napping outdoors on a blanket in a grass field.

Sinais que merecem observação

Existem alguns indicadores que podem ajudar a distinguir entre o que é variação normal do sono e o que merece investigação. Observe se a pessoa:

  • Dorme mais de duas vezes ao dia por períodos prolongados, sem motivo aparente
  • Dificulta para manter conversas ou atividades que antes gostava de fazer acordada
  • Apresenta confusão mental ao acordar ou desorientação no tempo e espaço
  • Relata não se sentir descansada mesmo após dormir a noite inteira
  • Tem alterações de apetite, humor ou interesse pelas atividades cotidianas

Esses sinais não são diagnóstico de nada, mas são razões para uma conversa com o médico ou geriatra. É justamente esse acompanhamento que permite identificar precocemente qualquer alteração que precise de atenção.

Causas comuns de sonolência excessiva na terceira idade

Quando um idoso passa a dormir muito durante o dia, diversas situações podem estar envolvidas. Conhecê-las ajuda a entender o contexto e a conversar melhor com os profissionais de saúde.

Alterações no padrão de sono são frequentes nessa fase da vida. Além da redução natural da melatonina, muitas pessoas experimentam fragmentação do sono noturno, acordando várias vezes durante a noite. Isso gera um acúmulo de cansaço que se manifesta como sonolência diurna.

Medicamentos também podem desempenhar um papel significativo. Alguns remédios comuns em pessoas mais velhas — como ansiolíticos, antidepressivos, analgésicos opioids e anti-histamínicos — têm efeito sedativo que pode se somar ao longo do dia. Quando há múltiplos medicamentos em uso, esse efeito pode se potencializar.

Outro aspecto importante são as condições de saúde que afetam diretamente a qualidade do descanso. Problemas como apneia do sono, insuficiência cardíaca, doenças pulmonares, hipotireoidismo e diabetes mal controlados podem causar fadiga intensa e sonolência. A anemia e a desidratação também são causas frequentes que frequentemente passam despercebidas.

Não se pode esquecer dos aspectos relacionados à saúde mental. A depressão em pessoas mais velhas nem sempre se manifesta como tristeza evidente — em muitos casos, o que aparece é perda de energia, desinteresse e aumento do tempo dedicado ao descanso. A solidão, a perda de papéis sociais e a redução de atividades significativas contribuem para esse cenário.

A relação entre sedentarismo e sono diurno

Um ciclo que se instala com frequência é o seguinte: a pessoa diminui suas atividades físicas por qualquer motivo — dor, cansaço, perda de motivação — e isso resulta em menos gasto energético. Com o corpo em repouso prolongado, o sono diurno aumenta, e menos atividade é feita no dia seguinte.

Essa espiral pode se tornar autoperpetuante e afetar diretamente a qualidade de vida. A prática de exercícios físicos adaptés, mesmo que moderados como caminhadas curtas, pode fazer uma diferença significativa na qualidade do sono noturno e na redução da sonolência durante o dia. Estudos têm mostrado que a atividade física regular contribui para um padrão de sono mais estável e reparador.

Porém, é importante ressaltar que qualquer programa de exercícios deve ser iniciado com orientação profissional, considerando as condições de saúde individuais. O fisioterapeuta ou o educador físico familiarizado com a terceira idade podem indicar atividades seguras e adequadas.

Como a família e os cuidadores podem ajudar

O papel de quem acompanha pessoas mais velhas é essencial nesse contexto. Observar, registrar e comunicar são ações valiosas que facilitam o trabalho dos profissionais de saúde. Anotar em que horários a pessoa dorme, por quanto tempo, se acorda durante a noite e como se sente ao longo do dia são informações que enriquecem qualquer consulta.

Além disso, criar uma rotina estruturada pode ajudar a regular o ciclo sono-vigília. Estabelecer horários fixos para dormir e acordar, expor a pessoa à luz natural pela manhã, evitar cochilos longos no início da tarde e manter atividades prazerosas ao longo do dia são estratégias que costumam trazer benefícios.

O ambiente também conta muito. Um quarto tranquilo, com temperatura agradável, sem excesso de ruído ou claridade artificial, favorece um sono noturno de melhor qualidade. Quando a noite é bem dormida, a tendência é que haja menos necessidade de compensação com sono diurno.

Por fim, é fundamental que o cuidador também cuide de si. A preocupação constante com o familiar pode gerar esgotamento, e o cuidador cansado tem mais dificuldade para perceber sutilezas importantes. Buscar apoio em grupos de cuidadores, compartilhar experiências e permitir-se descansar são práticas que beneficiam tanto quem cuida quanto quem é cuidado.

Quando buscar avaliação profissional

A sonolência excessiva durante o dia, por si só, não é uma emergência, mas merece ser discutida em uma consulta. O momento de agendar essa conversa é quando há mudança significativa no padrão de sono que a pessoa sempre teve, quando a sonolência interfere nas atividades do dia a dia ou quando vem acompanhada de outros sintomas como tontura, fraqueza, perda de apetite ou alterações de memória.

O geriatra é o profissional mais indicado para fazer essa avaliação inicial, pois está capacitado para considerar múltiplos fatores e solicitar os exames necessários. Em alguns casos, pode ser indicado encaminhamento para especialistas do sono ou para avaliação com neurologista.

Durante a consulta, perguntas úteis incluem: quais medicamentos estão em uso, há quanto tempo a sonolência começou, se houve alguma mudança recentena rotina, como está a alimentação e quais são os padrões de sono noturno. Ter essas informações organizadas facilita muito o trabalho do profissional.

Envelhecimento com qualidade de sono

Dormir bem é um dos pilares do envelhecimento saudável, assim como alimentação equilibrada e atividade física. Não se trata de um luxo, mas de uma necessidade real do organismo. Quando o sono não é reparador, diversas áreas da vida são afetadas: humor, memória, equilíbrio, imunidade e até o risco de quedas aumenta.

A boa notícia é que, na maioria dos casos, a sonolência excessiva tem solução quando identificada corretamente. Seja por ajuste de medicação, tratamento de condições subjacentes, mudança de hábitos ou simplesmente por orientação adequada, é possível melhorar significativamente a qualidade de vida de quem está na terceira idade.

O importante é não normalizar excessos, mas também não transformar o sono em fonte de ansiedade. Cada pessoa tem suas necessidades individuais, e o que importa é observar com carinho, buscar informações confiáveis e manter o diálogo com os profissionais de saúde. Cuidar do sono é cuidar da vida.

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