Geriatria e Gerontologia
Doenças

Vertigem ao virar na cama em idosos: quando pode ser VPPB

Por Carlos Meirelles 23/08/2026

A sensação de que o quarto gira ao virar na cama pode assustar a pessoa idosa e quem está por perto. Às vezes, a crise aparece ao deitar, levantar ou mudar o lado do corpo, dura poucos segundos e passa. Mesmo assim, ela pode deixar a pessoa insegura, provocar náusea e aumentar o risco de queda ao tentar chegar ao banheiro durante a noite.

Uma possibilidade é a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), também conhecida como vertigem dos cristais do labirinto. O padrão é bastante característico, mas não permite confirmar a causa sozinho. Tontura e vertigem podem ter origens diferentes, e uma avaliação profissional é importante quando o sintoma é novo, intenso, persistente ou recorrente.

Pessoa idosa sentada com a mão na testa após sentir vertigem

Por que a vertigem aparece ao virar na cama?

A VPPB acontece no sistema vestibular, uma parte do ouvido interno que participa do equilíbrio. Dentro dele existem pequenas partículas de carbonato de cálcio, chamadas otocônias. Em determinadas situações, partículas podem se deslocar para um canal semicircular, onde passam a estimular de maneira inadequada os sensores responsáveis por perceber o movimento da cabeça.

Quando a pessoa gira sobre o travesseiro, senta na cama, olha para cima ou inclina a cabeça, essas partículas podem se mover dentro do canal. O cérebro recebe então sinais que não combinam perfeitamente com o que os olhos e o corpo estão percebendo. Surge a impressão de que o ambiente está rodando, mesmo que a pessoa esteja parada.

O quadro costuma causar episódios breves. A crise pode ser forte, mas em geral diminui em menos de um minuto depois que a cabeça fica imóvel. Algumas pessoas sentem náusea, instabilidade ou percebem movimentos involuntários dos olhos. O Manual MSD explica que, na VPPB, não costuma haver perda auditiva nem zumbido associados à crise; quando esses sintomas aparecem, é preciso considerar outras possibilidades.

O envelhecimento aumenta a frequência desse problema, mas não significa que toda tontura em uma pessoa mais velha seja VPPB. Pressão baixa, alterações de visão, efeitos de medicamentos, desidratação, infecções, problemas neurológicos e outras doenças do ouvido interno também podem provocar desequilíbrio ou sensação de giro. Por isso, a expressão “labirintite” não deve ser usada como explicação automática para qualquer tontura.

Como diferenciar o padrão típico de outros tipos de tontura?

O padrão ajuda o profissional a investigar, e vale a pena descrevê-lo com detalhes. Na VPPB, a vertigem costuma ser desencadeada por um movimento específico da cabeça: virar para um lado na cama, deitar, levantar, olhar para uma prateleira ou abaixar-se. A pessoa geralmente consegue apontar o gesto que inicia o giro. Entre uma crise e outra, pode permanecer uma sensação de insegurança para caminhar.

Já a tontura contínua, a sensação de desmaio ou a instabilidade sem relação clara com a posição da cabeça podem indicar outro caminho de investigação. Uma crise que dura horas, vem acompanhada de perda auditiva, pressão no ouvido, zumbido importante, febre, dor de cabeça ou vômitos persistentes também não deve ser atribuída à VPPB sem exame.

Para organizar a consulta, anote quando começou, quanto tempo dura cada episódio, qual movimento dispara a sensação, se há náusea, queda, dor de cabeça, alteração na fala, fraqueza, visão dupla ou mudança na audição. Registre também os medicamentos em uso e se houve queda, pancada na cabeça, infecção recente, repouso prolongado ou cirurgia. Essas informações ajudam a separar vertigem de outras formas de tontura.

O RBGG já explicou o que observar na perda de equilíbrio em idosos. A leitura é complementar: nem todo desequilíbrio ocorre em crises ao virar na cama, e o cuidado precisa considerar visão, força, ambiente, marcha e medicamentos.

Quais cuidados tomar em casa até conseguir avaliação?

Durante uma crise, a prioridade é evitar uma queda. Oriente a pessoa a ficar sentada ou deitada até o giro diminuir. Não a incentive a levantar rapidamente para “testar se passou”. Se o episódio acontece à noite, deixe uma luz de presença, mantenha o caminho até o banheiro livre e coloque o telefone ou um dispositivo de chamada ao alcance. Tapetes soltos, fios e móveis baixos aumentam o perigo em um momento de instabilidade.

Ao levantar da cama, a pessoa pode primeiro sentar-se, apoiar os pés no chão e esperar alguns instantes antes de ficar em pé. Esse cuidado não trata a VPPB, mas reduz a chance de uma queda causada pela combinação de vertigem, sono e mudança brusca de posição. Se ainda estiver insegura, deve pedir ajuda para caminhar.

Evite fazer manobras vistas em vídeos sem saber se são adequadas para aquele caso. A manobra de reposicionamento, como a de Epley, pode ser indicada por um profissional depois de uma avaliação. A direção do movimento importa, e pessoas com limitações no pescoço, coluna, quadril ou circulação podem precisar de adaptação. Tentar sozinho pode piorar a crise ou causar lesão.

Também não é recomendável iniciar remédios para tontura por conta própria. Alguns medicamentos podem dar sono, reduzir a atenção e aumentar o risco de queda, além de interagir com tratamentos já usados pela pessoa idosa. Leve à consulta a lista completa de remédios, incluindo os comprados sem receita e os produtos naturais.

Enquanto aguarda atendimento, ajude a pessoa a evitar escadas, banho sem supervisão e tarefas que exigem olhar para cima ou inclinar-se. Não é preciso manter repouso absoluto por vários dias. O ideal é respeitar a insegurança, manter atividades simples com apoio e retomar os movimentos de forma orientada, sem insistir quando a vertigem aparece.

Quando a vertigem exige atendimento com mais urgência?

Procure atendimento de emergência se a vertigem vier com fraqueza ou dormência em um lado do corpo, rosto torto, fala enrolada, dificuldade para compreender, desmaio, confusão, visão dupla, dor de cabeça súbita e muito intensa, dor no peito ou falta de ar. Esses sinais podem apontar para uma situação que não deve esperar uma consulta de rotina.

Também é necessário buscar avaliação rápida quando há incapacidade de ficar em pé, queda com pancada na cabeça, vômitos repetidos, dor forte no pescoço, febre, perda auditiva súbita ou vertigem que não diminui. Em uma pessoa que usa anticoagulante, uma queda aparentemente pequena merece atenção especial, pois o risco associado a sangramento pode ser maior.

Mesmo sem sinais de emergência, marque consulta quando os episódios se repetem, limitam a caminhada, fazem a pessoa evitar a cama ou persistem por dias. O profissional pode realizar testes de posição, observar os olhos e avaliar equilíbrio, audição, pressão, força e sensibilidade. Dependendo dos achados, pode indicar uma manobra de reposicionamento, fisioterapia vestibular, revisão de medicamentos ou exames adicionais.

A VPPB costuma ter tratamento e muitas pessoas melhoram depois de uma conduta adequada. O ponto principal é não confundir essa possibilidade com um diagnóstico fechado. Para a pessoa idosa, reconhecer o gatilho é útil, mas proteger a mobilidade e investigar os sinais associados é ainda mais importante. Uma noite sem quedas, com iluminação e ajuda no momento certo, já é uma medida concreta de cuidado.

Perguntas frequentes

Virar na cama e sentir o quarto girar é sempre VPPB?

Não. Esse padrão é compatível com VPPB, mas outros problemas podem causar vertigem. A avaliação profissional deve considerar duração, sinais associados, medicamentos e histórico de quedas.

Quanto tempo costuma durar uma crise de VPPB?

As crises costumam ser breves e geralmente diminuem em menos de um minuto quando a cabeça fica imóvel. Vertigem prolongada ou recorrente precisa de avaliação.

Posso fazer a manobra de Epley em casa?

Somente depois de receber orientação adequada. A manobra depende do lado afetado e pode precisar de adaptação em pessoas com problemas no pescoço, coluna ou mobilidade.

Quando a vertigem é uma emergência?

Quando vem com fraqueza, fala alterada, rosto torto, visão dupla, confusão, desmaio, dor de cabeça súbita intensa, dor no peito, falta de ar ou incapacidade de ficar em pé.



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *